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Paulo Freire e a IA: à procura do momento estético da linguagem

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  Em tempos de IA generativa, quando a autoria é posta em questão, o retorno ao jovem Paulo Freire em seus primeiros anos de magistério como professor de língua portuguesa pode proporcionar uma perspectiva fecunda para o debate. Nas instituições de ensino, da educação básica à universidade, mas também no jornalismo ou em qualquer outro espaço em que a escrita está presente de modo destacável, a autoria passa por um mal-estar. Aplicativos de IA, capazes de criar textos, fazem hoje parte dos nossos cotidianos de trabalho. Basta um celular e um prompt na cabeça e pronto, é possível obter uma redação qualquer. E agora, o que poderia definir legitimamente a autoria, especialmente nos casos em que ela importa para certificar como autêntico um texto que foi entregue como resultado de um trabalho pessoal? Trata-se de uma questão que já suscita muita controvérsia e não pretendo aqui determinar o que é definitivamente correto, não é o motivo do artigo. Contudo, diante da densa névoa de probl...

Se Paulo Freire vivesse hoje, escreveria sobre estética

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Foto: Silvio Correa / Agência O Globo Em uma entrevista publicada em 1966, Lukács [1] fez a seguinte observação sobre Marx: “Se ele vivesse hoje, estou persuadido de que escreveria sobre estética”. Ainda que a estética já tenha sido objeto de estudo em sua obra [2] , é uma afirmação que causa alguma surpresa até hoje porque não estamos acostumados a imaginar que a atualidade de Marx conduz de algum modo ao problema da percepção do mundo em termos mais expressivos, afastando-se da visão restrita de que o conhecimento da realidade se dá apenas pelo que é supostamente “concreto”, em detrimento da investigação — muitas vezes considerada abstrata — das dimensões do sensível. E se disséssemos a mesma coisa sobre Paulo Freire, de que se vivesse hoje escreveria sobre estética? Parece estranho também? É o que gostaria de desenvolver no artigo, indicar que quase trinta anos após a sua partida, ocorrida em 1997, se Paulo Freire nos visitasse agora, daria ainda mais centralidade à que...

A economia da atenção, Cláudio Castro e o livreiro do Alemão

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Ao preparar um café na manhã do dia 28 de outubro, avistei da janela da área de serviço duas espessas colunas de fumaça negra que se elevavam no horizonte do lado oposto ao meu. A Linha Amarela divide meu ponto de observação, no bairro de Del Castilho, do Complexo do Alemão, de onde a fumaça se erguia à distância. Achei a imagem curiosa porque as duas colunas de fumaça eram relativamente uniformes e pareciam relativamente afastadas, mas não me detive muito mais e minha atenção logo voltou ao que estava fazendo. Instantes depois, após ver algumas publicações nas redes sociais, liguei a TV para acompanhar o noticiário ao vivo. Descobri então que aquelas colunas de fumaça eram ainda mais numerosas e decorriam de barricadas incendiadas feitas para impedir a progressão da polícia que realizava uma operação no Complexo do Alemão. No dia seguinte não lecionei as minhas aulas na UFRRJ porque estavam suspensas em razão das condições de insegurança que ainda persistiam na cidade do Rio de Janeir...