Se Paulo Freire vivesse hoje, escreveria sobre estética


Foto: Silvio Correa / Agência O Globo

Em uma entrevista publicada em 1966, Lukács[1] fez a seguinte observação sobre Marx: “Se ele vivesse hoje, estou persuadido de que escreveria sobre estética”. Ainda que a estética já tenha sido objeto de estudo em sua obra[2], é uma afirmação que causa alguma surpresa até hoje porque não estamos acostumados a imaginar que a atualidade de Marx conduz de algum modo ao problema da percepção do mundo em termos mais expressivos, afastando-se da visão restrita de que o conhecimento da realidade se dá apenas pelo que é supostamente “concreto”, em detrimento da investigação — muitas vezes considerada abstrata — das dimensões do sensível. E se disséssemos a mesma coisa sobre Paulo Freire, de que se vivesse hoje escreveria sobre estética? Parece estranho também? É o que gostaria de desenvolver no artigo, indicar que quase trinta anos após a sua partida, ocorrida em 1997, se Paulo Freire nos visitasse agora, daria ainda mais centralidade à questão da estética em sua obra.

Naturalmente, não pretendo torcer as palavras de Paulo Freire para tentar predizer alguma coisa sobre ele se estivesse em nossa companhia no século XXI. Na avaliação que Lukács faz sobre atualidade de Marx, já distante do século XIX em muitos aspectos, aponta como a passagem do tempo renovaria sua importância, de acordo com o momento mais avançado do capitalismo na segunda metade do século XX. O diálogo de Lukács no trecho da entrevista imediatamente anterior à passagem que citei é esclarecedor: “Ele (Marx) pertencia a seu tempo. Utilizo seu método para minha obra sobre estética”. Há uma particular emergência do problema da estética na época do capitalismo tardio, que merece a devida atenção, mas que se beneficia também do que Marx já havia desenvolvido teoricamente sobre o capitalismo no século anterior. Poderíamos fazer o mesmo caminho com Paulo Freire e seguindo o movimento do seu próprio pensamento.

Em outro artigo[3] procurei demonstrar que apesar da lacuna que encontramos entre os estudiosos e intérpretes da obra de Paulo Freire a respeito da questão da estética no seu pensamento, trata-se de algo que ele insistentemente assinalou entre os seus escritos e outros registros. O estético, o artístico e a beleza fazem parte das concepções que desenvolveu sobre educação e apenas um relativo desinteresse crítico pelo tema em sua obra explica a omissão em não notá-la. É certo que ele mesmo não apresentou a importância que atribuía à estética para a educação de modo mais metódico, obedecendo a um plano ou ordem lógica que organizasse para os seus leitores e interlocutores sua visão sobre o assunto. Mesmo assim, foram inúmeras as vezes em que articulou a estética ao tratar da prática educativa. Aqui vou me limitar a trabalhar com três fragmentos extraídos de um momento mais avançado da sua vida, já na década de 1990.

Texto 1

[...] O processo de transformação é estético, ético, político e cognoscitivo. Implica que eu devo conhecer cada vez mais, não somente o objeto que eu quero transformar, mas as razões pelas quais devo transformá-lo, as finalidades pelas quais eu devo transformá-lo. Isto implica também que eu preciso conhecer algo mais além do próprio objeto. Então, tudo isso significa um exercício crítico de percepção do mundo. [...] Se alguém me provar que é possível desenvolver um processo de transformação sem nenhuma preocupação cognoscitiva, ética, estética, então eu retirarei todos os meus livros das editoras e farei um comunicado ao mundo dizendo: “Realmente passei”.[4]  

Texto 2

[...] Sou tão radical na questão da compreensão da educação como arte que nem sequer uso a expressão que você usou de educação através da arte, que é o título do famoso livro de Herbert Read. E não uso porque, para mim, educação já é arte, então não falo de educação pela arte porque ela é artística desde que começa. Agora compreendo o uso tácito da expressão e tento também usar arte como conteúdo de educação que incremente a arte.[5]

Texto 3

Eu diria também que uma das notas centrais de uma prática educativa, principalmente nesses tempos atuais de avanços tecnológicos em que você pode virar tecnicista, é você viver intensamente a esteticidade da educação. Sou tão exigente com isso que nem sequer uso a expressão que deu título ao famoso livro de Herbert Read, A educação pela arte, nos anos 50. A educação é já essa “arte”, apesar de poder fazer pela arte também. Ela é em si uma proposta artística, ela já tem arte. Então, não há educação sem criatividade [...].[6]

Os textos 1 e 2 são extratos da participação de Paulo Freire em um seminário sobre educação popular no Paraguai, em setembro de 1992.  O texto 3 é um fragmento de um depoimento de Paulo Freire concedido à psicanalista Zélia Goldfeld no ano de 1996. Paulo Freire nos deixou em 1997, portanto, expressam o seu pensamento em uma época em que a sua trajetória e obra já estavam consolidadas, mas ainda assim desafiava suas ideias. Desde a saída do Brasil no ano de 1964, em razão da perseguição da ditadura militar instalada com o golpe, o seu retorno definitivo em junho de 1980 e até a década de 1990, o mundo se transformara. A virada neoliberal talvez constitua o episódio mais marcante e até hoje é um problema político não vencido. Na sua última década de vida, Paulo Freire inúmera vezes advertiu sobre a importância de não cedermos ao “fatalismo neoliberal”.[7] Com os textos selecionados, gostaria de abordar como, em Paulo Freire, a estética aparece de modo bastante enfático quando problematiza o rumo das sociedades naquele instante.

No referido seminário Paulo Freire é solicitado a falar sobre a atualidade da educação popular. Metodicamente, primeiro apresenta sua definição do que é educação, destacando seu caráter diretivo. Entende que a educação é um processo intencional no sentido de que partilha alguma concepção de sociedade a ser conservada ou transformada. A seguir, discute o caráter transformador da educação popular, na medida em que expressa exatamente os interesses das classes populares. Subalternizada, a classe popular possui demandas de mudanças sociais. A educação popular é intrinsecamente crítica porque deve ser capaz de problematizar o poder e conceber o que deve ser alcançado para concretizar uma sociedade emancipada de toda opressão. É no contexto dessa discussão que Paulo Freire expressa o que encontramos no texto 1. O fragmento recortado nos mostra a importante relação existente entre a prática do conhecimento na educação e a sua finalística. É possível dizer que se trata do fundamento epistemológico da educação popular.

Para a educação popular, inexiste cisão entre o ato de conhecer e o ato de existir. A visão mais estreita da educação não ambiciona a transformação das condições de existência das coisas em uma sociedade estruturada fundamentalmente na opressão. Para Paulo Freire, o ato de conhecer deve corresponder ao propósito de cessação das opressões. No fragmento do texto 1 afirma o caráter integral do processo de transformação, quando diz que “é estético, ético, político e cognoscitivo”. O conhecimento que participa do processo de transformação deve ser capaz de perceber seus objetos em uma dimensão que alcance também as determinações da sua existência. Dito de outro modo: O conhecimento não se esgota em um aprendizado direto do que é um determinado objeto, mas deve ser capaz de inquerir também sobre as suas razões de ser e na mudança mesmo da sua natureza para a existência humana. A estética aparece aí como parte da experiência de “percepção do mundo”, sem a qual não é possível conhecer plenamente, ou seja, conhecer para recriar as condições de existência das coisas no mundo.  

Ainda durante o seminário, na seção de debates, há um outro momento da sua participação que destaco, que está no texto 2. Um participante do evento dirige a Paulo Freire uma pergunta sobre a oportunidade de utilizar a “educação pela arte” na educação popular. A questão proposta é de fundamental importância para aqueles que investigam a dimensão estética no pensamento de Paulo Freire porque nos faz perscrutar um elemento ainda pouco explorado sobre a sua itinerância de educador. Paulo Freire fez parte do Movimento Escolinhas de Arte no Brasil, quando participou da Escolinha de Arte do Recife, criada em 1953. Na biografia que Ana Maria Araújo Freire[8] escreveu sobre Paulo Freire há um depoimento de Noêmia Varela, uma das suas fundadoras, que recorda a sua presença: “Na Escolinha de Arte do Recife [...], Paulo Freire descobriu haver um espaço onde poderia ter acesso à estranheza e ao surpreendente poder da arte no processo educativo”. Nos primeiros anos da década de 1950 Paulo Freire é um jovem professor e a dimensão artística já integrava sua formação e atividade docente.

Quarenta anos depois, quando é indagado sobre a concepção de “educação pela arte”, aparentemente uma pergunta aleatória feita por um participante do encontro, Paulo Freire já tinha uma resposta pronta, remetendo imediatamente à proposta e ao autor[9] que a difundiu. Jader Medeiros Britto e Alexandre Palma[10], em um livro dedicado ao legado e a memória da pioneira Escolinha de Arte do Brasil, fundada em 1948, no Rio de Janeiro, destacam que “a principal matriz de pensamento desse movimento (das Escolinhas de Arte) de alcance internacional foi a obra clássica de Herbert Read, Education through Art, traduzida para vários idiomas [...]”. Portanto, é possível afirmar com segurança que o conhecimento da obra, cuja primeira edição é do ano de 1943, e da sua importância se deve à sua participação na Escolinha de Arte do Recife, já nos seus primeiros anos. E mais, não apenas conhecia Herbert Read, mas se afastava da proposta de “educação pela arte” porque entendia que “educação já é arte”. O que significa?

 

Para Paulo Freire, há um caráter transformador da educação que se põe em movimento quando socialmente assumido. Por isso a distinção da educação popular, como vimos. Com efeito, não estamos falando de um fenômeno natural, mas politicamente orientado à mudança. A educação é, como propõe Paulo Freire, um processo criador. Então, quando Paulo Freire não endossa a proposta de “educação pela arte” é porque para ele a educação já é arte, no sentido que ela é virtualmente uma experiência criadora. Na verdade, até admite que a identidade da arte também modele a experiência educativa, mas não é para ele a questão mais importante a ser considerada sobre arte e educação. A intenção artística, criadora, é inseparável do ato educativo. Por isso não separa o campo estético como algo a ser incluído à educação. Não é possível agir sobre o mundo sem uma compreensão a respeito da razão de ser das coisas, gesto sempre crítico porque inconformado com a realidade social da opressão. Em condições emancipatórias, o artístico faz parte da “percepção do mundo” para recriá-lo.

Sua visão sobre a característica artística da educação estava tão consolidada que mais alguns anos adiante retorna à mesma discussão em que opõe sua visão à proposta de “educação pela arte”. É o que aparece no texto 3. Publicado em um livro que reunia 34 depoimentos de pessoas com mais de 60 anos, voltados à vitalidade entre pessoas idosas, a colaboração de Paulo Freire está dividida em alguns temas que ele aborda. Na seção em que fala da criatividade, Paulo Freire observa como a curiosidade constitui uma “experiência vital” em razão dos processos criativos que desencadeia. A criatividade faz parte da vontade de “remodelação do mundo”, considera Paulo Freire. Ao abordar a educação, traz à memória novamente a proposta de Herbert Read para reafirmar sua concepção de que, na verdade, ela já é intrinsecamente artística. O que percebemos no ressurgimento da questão, é a sua atualidade para Paulo Freire. Entre as mudanças em curso à época mais tardia da sua vida, mostra-se sensível ao risco do tecnicismo, ou seja, de uma valorização exagerada dos avanços técnicos e propõe como uma atitude emancipatória “viver intensamente a esteticidade da educação”.

Nos seus últimos anos de vida Paulo Freire manteve uma atenta e significativa atividade intelectual. Em um artigo que escreveu em janeiro de 1997, “Primeira carta: do espírito desse livro”, que deveria abrir seu próximo livro, não concluído em razão da sua morte em maio, mas publicado na obra póstuma Pedagogia da indignação, afirma que “vivemos um tempo de transformações cada vez mais radicais [...]”.[11] Paulo Freire demonstrava consciência das enormes mudanças em curso nas sociedades contemporâneas. Aqui trabalhei com apenas três fragmentos extraídos de duas publicações, póstumas também, mas existem muitos outros exemplos que já coletei para a minha pesquisa sobre a estética em Paulo Freire, que demonstram como um tema que de algum modo atravessou toda sua obra, constituía uma questão também tardia do seu pensamento, vivamente lembrada exatamente em uma época de transformações que mobilizam sua atenção crítica, sugerindo a necessidade de “viver intensamente a esteticidade da educação”, como modo adequado para a atualidade na “percepção do mundo” .

 


[1] LUKÁCS, György. Lukács: retorno ao concreto. In: Essenciais são os livros não escritos: últimas entrevistas (1966-1971). São Paulo: Boitempo, 2020. p. 30.

[2] VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. As ideias estéticas de Marx. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

[3] BERINO, Aristóteles. O pensamento estético de Paulo Freire. Outras Palavras, São Paulo, 10 abr. 2025. História e Memória. Disponível em: https://outraspalavras.net/historia-e-memoria/opensamento-estetico-de-paulo-freire/. Acesso em: 17 jan. 2026.

[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia do compromisso: América Latina e educação popular. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2018. p. 212.

[5] Ibidem, p. 226.

[6] FREIRE, Paulo. “Gostaria de poder afastar, o mais possível, de mim, a morte”. In: Pedagogia da tolerância. São Paulo: Ed. UNESP, 2004. p. 299.

[7] FREIRE, Paulo. Segunda carta: Do direito e do dever de mudar o mundo”. In: Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Ed. UNESP, 2000. p. 60.

[8] FREIRE, Ana Maria Araújo. Paulo Freire: uma história de vida. 2ª ed. rev. atualizada. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017. p. 84.

[9] READ, Herbert. A educação pela arte. 2ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

[10] BRITTO, Jader de Medeiros; PALMA, Alexandre. Escolinhas de Arte do Brasil: legado e memória. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2019, p. 24.

[11] FREIRE, Paulo. Primeira carta: do espírito deste livro”. In: Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP, 2000. p. 29.


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