Postagens

Madonna featuring Paulo Freire

Imagem
O ano é 2024. Paulo Freire é visto em um show da Madonna na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.  Um registro icônico que foi parar no Instagram, viralizando. Ao lado de outras personalidades também em destaque, a imagem de Paulo Freire pareceu política e corretamente ali incluída no show de uma artista tantas vezes vista como disruptiva. No entanto, uma aparição que não deixou de provocar algumas perguntas sobre o motivo da lembrança. Foi uma inclusão legítima ou apenas comercial, em um show contratado por milhões de dólares? Não pretendo discutir aqui a autenticidade de Madonna ou dos seus fãs. Se morasse em Copacabana, ou mesmo próximo ao bairro, acredito que eu teria me animado em assistir no local toda a grandiosidade do evento. Desse modo, não tenho interesse algum em julgar a artista ou seu público. Ainda assim, como pesquisador da obra do Paulo Freire, gostaria de discutir algo que me parece importante hoje, quando tentamos compreender como as redes sociais estão atuan...

Uma recordação escolar com uma turma da 6ª série e Mano Brown

Imagem
                 Extrato do Memorial que estou escrevendo para a minha promoção a Professor Titular da UFRRJ.   Vou contar uma história que reproduzi apenas parcialmente na minha tese (BERINO, 2007, p. 13) porque, de modo até impensável, somente muitos anos depois ela teve o seu fim. Em 1997, quatro anos após ter começado a lecionar na rede municipal do Rio de Janeiro, eu já vivia muitas dúvidas sobre o meu ensino como professor de História na escola pública. Percebia que meus alunos e alunas não demostravam muito interesse pelas aulas. Sentia uma frustração, mas também uma inquietação propícia à experimentação pedagógica. Curiosamente, estava lotado em uma escola, a E. M. Ministro Orosimbo Nonato, que é próxima à minha residência atual. Na época, ao terminar a minha jornada de trabalho, seguia para o ponto de ônibus na rua em que moro hoje, em Del Castilho. A escola fica em Heliópolis, um bairro adjacente. Só agora, quando desper...

Publicação do meu livro Centenário de Paulo Freire e outras conversas da pandemia

Imagem
I ntrodução Acredito que em razão da minha graduação em História, quando aprendi a perceber melhor o significado do tempo, sempre inicio meus cursos sobre Paulo Freire observando que ele foi contemporâneo de todos os acontecimentos marcantes do século XX, no Brasil e no mundo. Nasceu em 1921, três anos apenas após à I Guerra Mundial, e um ano antes da Semana de Arte Moderna, quando foi também fundado o Partido Comunista, seção Brasileira da Internacional Comunista. Teve a sua vida absolutamente transformada pelo exílio, depois de atingido por um dos episódios mais destacados da história do Brasil, o golpe civil-militar de 1964. Faleceu em 1997, quando o período da Guerra Fria já havia se encerrado e o Muro de Berlim não existia mais. No final do século, a arte já era chamada de pós-moderna. Paulo Freire foi, portanto, inteiramente um personagem do século XX. No ano de 2012, foi declarado patrono da educação brasileira, um reconhecimento pelo seu legado e sentida atualidade. Contudo, ...

Carolina Maria de Jesus, uma vida filosófica

Imagem
Lendo Paulo Freire, mais do que nunca: Uma biografia filosófica [1] , me ocorreu de pensar se Carolina Maria de Jesus não viveu uma “vida filosófica” também, do mesmo modo que Walter Kohan (2019, p. 73) propõe para Paulo Freire. A contrapelo das conhecidas tentativas de situar a filosofia em Paulo Freire a partir das influências que recebeu das correntes de pensamento que o precederam, Walter Kohan faz um giro e propõe outro olhar, que não é propriamente o de identificar a conexão conceitual entre autores.  Walter Kohan nos faz ver como Paulo Freire se associa a outras duas tradições, particularmente voltadas para o problema da imanência da vida na filosofia. A primeira delas é a representada por Marx, sobretudo, nas Teses sobre Feuerbach. A segunda está no Foucault tardio de A coragem da verdade. A questão, então, não é o da conformidade teórica com esses autores, mas como neles existia uma preocupação com a própria vida – a vida como problema filosófico – que Paulo Freire se oc...

Deverá ser de outro jeito

Imagem
  “Definitivamente, eu não estou a fim de pagar essa conta:  para mim não vale o conserto". Ailton Krenak (2020, p. 68) Depois de uma suspensão forçada, já estamos liberados para atualizar nossa produção acadêmica no Currículo Lattes. A “instabilidade dos sistemas”, ocorrida nos últimos dias do mês julho de 2021, foi corrigida. Verdadeiramente, apenas parcialmente. Começo a escrever agora, no dia 14 de agosto, e o acesso ao Diretório dos Grupos de Pesquisa no CNPq continua frustrado. [1] Outras atualizações vão se acumulando até o retorno à normalidade também. A sério, são inúmeros retornos à normalidade que aguardamos. A mais grave das expectativas permanece incerta. Quando a pandemia terá terminado? O prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, anunciou quatro dias de festas, já em setembro , para “celebrar a vida”. Será? Usar máscaras na pandemia é um cuidado que muitos preferiram ignorar, favorecendo o contágio e espalhamento do vírus. O estado de emergência...

A conclusão faltante

Imagem
    No dia 16 de julho de 2021 contávamos 540 mil mortes por Covid-19 no Brasil. Na minha cidade, Rio de Janeiro, já existe um cronograma de vacinação que incluirá adolescentes de até 12 anos em setembro. Em novembro toda a população até essa idade terá terminado o esquema vacinal completo (até duas doses) e em dezembro pessoas com mais de 60 anos já estariam recebendo a dose de reforço. Apesar dos números assustadores alcançados pela pandemia no país, parece que até o final do ano a imunização termina e a pandemia poderá atingir o seu fim ou pelo menos estará controlada em números estatisticamente assimiláveis diante do que ocorreu em termos de colapso hospitalar e óbitos até aqui. Mesmo assim, o médico e neurocientista Miguel Nicolelis advertiu, em um artigo publicado no dia 18 de julho no jornal Correio Brasiliense , que a pandemia está longe de acabar . Nicolelis preocupa-se com a transmissibilidade do vírus da chamada variante Delta  e o maior relaxamento das ...

Educar com a mídia na pandemia?

Imagem
Educar com a mídia: novos diálogos sobre educação , publicado em 1984, é um dos “livros falados” do Paulo Freire com Sérgio Guimarães. Originalmente, o livro foi publicado com o título Sobre educação: diálogos II . A mudança do título ocorre na edição de 2011, quando a questão dos usos dos meios de comunicação na educação já havia adquirido uma visibilidade maior e agora, quase 40 anos após a sua primeira publicação, constitui um tema incontornável, durante a pandemia. O novo nome da obra praticamente atualiza seu conteúdo, talvez já esquecido pelo tempo. O fato é que as tecnologias estão ainda mais desenvolvidas para usos educacionais e os conceitos também, mais associados às tecnologias digitais. Lá se vão cem anos do nascimento de Paulo Freire, que acontece em meio a uma pandemia viral. Estamos a perguntar na data comemorativa: Paulo Freire teria alguma coisa a nos dizer, de mais específico, sobre os desafios da educação popular e a da comunicação durante pandemia da Covid-19? [1]...